No dia 13 de junho de 1962, eu nascia em Governador Valadares-MG, sendo recepcionado por condições precárias de vida, propiciadas pela indescritível pobreza reinante no nosso lar. João Alves e Ofelina Cadete Alves, os meus pais, alegraram-se e ficaram preocupados ao mesmo tempo com a minha chegada. Alegraram-se por chegar o quinto filho da família; preocuparam-se porque tinham a convicção de que eu seria o mais sacrificado dos irmãos, todos pequenos na época, estando a irmã mais velha, com apenas oito anos de idade.
Por serem múltiplos os problemas enfrentados pela família Alves em Governador Valadares-MG, os meus pais decidiram vir para Vila Velha-ES, mais precisamente para São Torquato, local onde tinham parentes, o que os deixava com esperanças de melhores dias. O mês de novembro de 1963 presenciou estes acontecimentos, que se encontram guardados nos arquivos do tempo.
Em dezembro de 1963, eu me encontrava muito doente, quase sem esperanças de recuperação, vítima de desnutrição e verminose em estágios elevados. Nessas mesmas condições, os meus pais me doaram ao esposo de uma irmã materna, que não quis ficar comigo e me doou a um estranho. Esse estranho, por pressões desfavoráveis de sua esposa quanto à minha adoção, não pôde ficar comigo também, trazendo-me para Viana e doando-me para as suas irmãs Maria e Elvira do Nascimento, de 52 e 50 anos de idade respectivamente na época. Elas por serem solteironas e por se sentirem muito solitárias na casinha da Praça Jerônimo Monteiro, nº 141, adotaram-me transbordantes de felicidade, apesar do estado em que eu me encontrava. Era e, ainda é esmagador o número de parentes de Maria e Elvira aqui em Viana, onde a maior parte deles na época não aprovaram e acharam absurda a adoção por elas efetuada. Os mesmos parentes que objetaram quanto a isso, as aconselhava diariamente a não ficarem comigo. Talvez esses parentes agissem assim, pelo fato de Maria e Elvira serem pobres e precisarem do auxílio dos mesmos para sobreviverem.
As pressões por parte dos parentes eram maiores a cada dia, para que as moradoras da casinha da Praça Jerônimo Monteiro, nº 141 não ficassem comigo, mas Maria e Elvira tinham as suas opiniões formadas sobre o assunto e não davam ouvidos a comentários, cujo propósito era separar-me delas. O fato, é que muitos dos parentes que as ajudava antes da minha adoção, não queriam mais ajudá-las após a mesma e, se ajudavam, não era com a mesma boa vontade de antes.
Algumas tentativas foram feitas mais tarde para me separar de Maria e Elvira, mas o amor que elas tinham por mim, sempre foi mais forte que o possível fantasma da separação. Os que tentavam separar-nos e não conseguiam, ficavam irados com o fracasso e, inconformados, transformaram as nossas três existências em um verdadeiro inferno; inferno esse, que talvez eu venha a narrar futuramente, com riqueza de detalhes.
Fui registrado no livro de batismo da Igreja Católica com cinco anos de idade.
O meu Registro Civil foi feito quando eu me encontrava com dez anos de vida. Registro este que me transformou em um filho sem pais, explico: No meu registro civil constava como pai - Não Declarado e como mãe - Felinta Alves, só que o meu pai era João Alves, que conhecí (já falecido) e, Ofelina Cadete Alves, que reside hoje, perto de minha casa, na mesma rua. Imaginem pessoas inexistentes com um filho existente, esse sou eu. Na verdade, eu sou a única pessoa do mundo, que não existe, existindo. Vocês podem olhar para mim e dizer: - Você não existe! E, infelizmente eu terei de concordar. Como pode um filho de pais inexistentes, existir? Eu só existo, porque sei que estou aqui!
Com muitas lutas e sacrifícios de Maria e Elvira e, com a ajuda de alguns parentes e amigos preciosos como o falecido farmacêutico Dr. Arcílio Tononi, consegui superar a doença e crescer em uma vida sofrida.
Cursei o primário de 1970 a 1973 na Escola de 1° Grau " Padre Antunes Siqueira". Fiz o ginasial e o curso Técnico em Contabilidade, de 1974 a 1980 na Escola de 1° e 2° Graus " Nelson Vieira Pimentel", antiga Escola de 1º e 2º Graus de Viana.
Maria do Nascimento (Tia Mariquinha) e Elvira do Nascimento (Tia Vivi), faleceram em 28 de janeiro de 1979 e 13 de março de 1983, respectivamente. Perdas que me deixaram na época, com a sensação de não ter mais nenhuma razão para lutar pela vida.
Desde a mais forte chicota que recebí da vida, ao perder as minhas mães adotivas, fui acolhido no seio familiar de Domingos Lyrio e Benedicta Nascimento Lyrio, cunhado e irmã das falecidas. Esse acolhimento ocorreu no dia 13 de março de 1983, data do falecimento de Tia Vivi.
Tio Domingos e Tia Bina também já faleceram, mas estarão sempre vivos na minha lembrança e no meu coração. Vale ressaltar que de todos os irmãos de Maria e Elvira, a única a se preocupar comigo me oferecendo além de um lar, um pedaço de quintal para que eu construísse uma casa no futuro (o que não aceitei), foi a minha querida Tia Bina. Os outros irmãos, simplesmente me ignoraram. Venderam a casinha da Praça Jerônimo Monteiro, n° 141 a preço de banana e nem sequer me ofereceram as cascas. Não tive direito sequer a um centavo da venda, mesmo morando na casinha da Praça Jerônimo Monteiro há quase 21 anos.
Hoje sou profundamente feliz, porque vejo no Deus Criador, o segredo da verdadeira felicidade. Conhecí Esse Deus maravilhoso e poderoso no ano de 1984 na Igreja Adventista do Sétimo Dia. Hoje sou, Diretor do Ministério Pessoal e Diretor de Publicações da Igreja Adventista do Sétimo Dia de Nova Almeida-Serra-ES, onde resido e freqüento. Tenho uma família maravilhosa composta por mais quatro membros: Creusa Lucas de Sousa Alves (34 anos - esposa); Weksley Lucas de Sousa Alves (12 anos - filho); Welkhya Lucas de Sousa Alves (08 anos - filha) e Wendryk Lucas de Sousa Alves (04 anos - filho).
Atualmente exerço a função de Fiscal de Rendas na Prefeitura de Viana, onde o salário base atual é uma vergonha, R$ 420,00 (Quatrocentos e vinte reais) e, com todas as vantagens, não chega a R$ 700,00 (Setecentos reais), obrigando-nos a corrermos por fora, para que a nossa família não passe fome. Gostaria que os amigos Fiscais de Rendas do Brasil entrassem em contato comigo, para que eu fizesse um comparativo dos salários da função em outros municípios, cuja identidade aqui em Viana, já foi até tirada, talvez por vergonha de nos pagarem tão pouco, denominam-nos de Agente de Arrecadação, o que nunca fomos e nunca seremos. A verdade é que o nosso contra-cheque nos torna motivo de piada, quando queremos abrir um crédito em uma loja ou em uma instituição financeira. O profissional que coloca dinheiro no cofre municipal não tem nenhum valor, como nunca teve em nenhuma outra administração anterior (exceto quando prestamos o concurso público, quando o salário base era de quase 04 salários mínimos, um dos melhores do concurso). Passei em concurso público em 1988 para a honrosa função de Fiscal de Rendas, mesmo mal remunerada atualmente, cuja Associação municipal já presidi por um mandato.
No currículo profissional já fui Secretário da Junta de Serviço Militar de Viana, Chefe do Departamento de Atividades Urbanas e Limpeza Pública da Prefeitura de Viana, Chefe da Divisão de Administração Geral, Diretor Adjunto Substituto e Diretor Geral Substituto da Penitenciária Agrícola do Espírito Santo.
Na vida, sou cantor, compositor, poeta, escritor e filósofo amador. O meu primeiro CD evangélico com composições próprias (10 faixas) está para sair brevemente, querendo Deus. Já estou em estúdio gravando.
Espero ter satisfeito um pouquinho a curiosidade de vocês com o meu relato.
Abraços a todos.
Viana-ES, 03 de setembro de 2007
Antonio Alves